24 de junho de 2010

Despedida (Martha Medeiros)

Existem duas dores de amor:
A primeira é quando a relação termina
e a gente, seguindo amando,
tem que se acostumar
com a ausência do outro,
com a sensação de perda,
de rejeição e com a falta de perspectiva,
já que ainda estamos tão embrulhados na dor
que não conseguimos ver luz no fim do túnel.

A segunda dor é quando começamos a vislumbrar
a luz no fim do túnel.

A mais dilacerante é a dor física
da falta de beijos e abraços,
a dor de virar desimportante para o ser amado.
Mas, quando esta dor passa,
começamos um outro ritual de despedida:
a dor de abandonar o amor que sentíamos.
A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade,
de ficar livre, sem sentimento especial por aquela pessoa.
Dói também…

Na verdade,
ficamos apegados ao amor
tanto quanto à pessoa que o gerou.
Muitas pessoas reclamam
por não conseguir se desprender de alguém.
É que, sem se darem conta, não querem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído,
tornou-se um souvenir,
lembrança de uma época bonita que foi vivida…
Passou a ser um bem de valor inestimável,
é uma sensação à qual a gente se apega.
Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis,
mas para isso é preciso abrir mão
de algo que nos foi caro por muito tempo,
que de certa maneira entranhou-se na gente,
e que só com muito esforço é possível alforriar.

É uma dor mais amena, quase imperceptível.
Talvez, por isso,
costuma durar mais
do que a ‘dor-de-cotovelo’ propriamente dita.
É uma dor que nos confunde.
Parece ser aquela mesma dor primeira,
mas já é outra. A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais,
mas interessa o amor que sentíamos por
ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos,
que nos colocava dentro das estatísticas: “Eu amo, logo existo”.

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou,
externamente, sem nossa concordância,
mas que precisa também sair de dentro da gente…
E só então a gente poderá amar, de novo...
Martha Medeiros

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